sábado, 24 de março de 2018

Viva e deixe viver


Viva e deixe viver.

Uma das lições que a vida insiste em me ensinar.

Ocupe-se com o que depende de você. O que não é seu, ou não está sob sua responsabilidade, não lhe diz respeito e não deveria tomar sua atenção. Consigo imaginar as nuvens do céu tornando-se escuras e uma voz trovejante recitando repetidas vezes essas palavras.

Deixar ir é sabedoria posta em prática. Aquele papo de cultivar o jardim ao invés de tentar capturar as borboletas também. Será que a vida é um saco de clichês? Às vezes, me parece que sim. Mas não nos enganemos, isso não significa que as coisas seguem roteiros.

Viver é lutar.

Não me refiro àquele estado em que apenas existimos diante da realidade, sem fincar os pés no chão, bolando de um lado para o outro ao sabor de qualquer solavanco mais intenso. Trato da vida. Aquela tal, com boletos a vencer, nossos próprios cuspis caindo em nossa própria testa, respiração ofegante a maior parte do tempo e braçadas firmes, mesmo que contra a correnteza.

As pessoas estão enchendo os consultórios dos mais variados psi, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, porque suas fórmulas não surtem efeito. Nem religião, nem curtição, nem malhação. Nem sim e nem não. A vida é bem mais que isso, ou aquilo que disseram ser o certo. E não há sujeito tão intolerante à incerteza quanto o dito ser humano. O pobrezinho batalhou para ter tudo sob controle, criou listas e listas de 10 coisas mais importantes a se fazer sobre qualquer coisa, para, no fim das contas, perceber-se perdido na inexorável imensidão de possibilidades.

Essa dança, tanto macabra quanto bela, das incertezas é a vida. Apenas isso. O ir e vir diante de erros e acertos, o cair e levantar, a coragem para gargalhar no final, ou apenas desabar. Não tem muito mais que isso, além da vontade genuína de fazer dar certo, sabendo que há grandes chances do contrário acontecer.

Pronto.

É com esta realidade que convivemos.

Podemos cair no choro, ou podemos sentar e apreciar a beleza presente nisso tudo, antes de levantar e ir em busca da mais nova aventura, aceitando os riscos e admirando o que se vive durante a travessia. No fim das contas, o caminhar é a única certeza que temos.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A espera.

Eu escolhi esperar.

Mesmo ansiosa por saber o que virá, recolho minha necessidade de respostas e vivo o presente da melhor forma possível, tentando preencher de amor cada poro do meu ser, porque é assim que se deve viver e é isso o que a vida espera de mim.

Decidi aguardar.

A minha pressa atrapalha o meu processo e de todos ao meu redor, porque o tempo é de cada um e essa demora é, na verdade, a orquestra da existência tocando a sua melhor sinfonia, mesmo para ouvidos apegados à dor e olhos incapazes de enxergar a beleza da penumbra que a falta de sol provoca enquanto seus raios não surgem queimando as pupilas.

É melhor não me apressar.

O tempo do bolo, o ponto da massa, o momento exato do golpe de mestre precisam ser respeitados se queremos o melhor. Não é a minha infantil busca por respostas que fará cada tudo se acelerar. Essa criança mimada precisa compreender a dança que acontece exatamente neste momento e que um pisão é desnecessário se cada coisa tem seu momento certo para dar o próximo passo.

Há que sentar e admirar.

Há tempo de plantar, tempo de colher, tempo de saber e de apenas cuidar. Deve-se catar as lagartas para que não destruam a plantação, verificar se cada planta está recebendo a devida quantidade de água em suas raízes, se os cestos precisam de reparos para o momento da colheita, que certamente virá, ou se os bichos estão sendo alimentados e as pessoas, sendo amadas.  A colheita, o saber, é apenas um momento da jornada.  A vida é bem maior que perguntas e respostas. A vida é o agora nos convidando a fazer o melhor que podemos.

O quando será sempre um grande mistério.


Enquanto não se revela, sigamos amando. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Mortes-em-vida

Há um morrer e renascer constante na vida. Procure aprender essa arte.

Pode haver poesia em suas mortes-em-vida, apesar de doloridas, como devem ser. A contemplação dos mistérios do mundo e o embasbacar-se com a beleza oculta em fatos insuportáveis aos olhos de quem não sabe a importância do deixar ir.

Seu peito vai ser atingido no meio e haverá sangue, muito sangue. Paúra num primeiro momento para, logo em seguida, perceber que são apenas excessos sendo drenados para que o corpo possa renovar as próprias forças.

Observe todos os cortes na sua pele e perceba que não havia como sobreviver por mais tempo naquelas condições. Viver assim por quê?! A sabedoria da vida é imensa e ela prefere descartar o inútil a permitir que a energia vital seja desperdiçada sustentando um organismo estropiado, caduco.

O último suspiro se prolongará por muito tempo, mais do que julgam necessário num primeiro momento. Haverá um luto, seu e dos seus. Todos sentirão a sua falta e se julgarão impotentes diante da sua paralisia. Isso frustra. Tenha paciência com eles. E você, entediar-se-á diante da letargia que uma cabeça acelerada e paranoica pode provocar. Paciência consigo também, por gentileza.

E há também os vermes. Eles chegarão para roer cada pedaço seu. Assusta, confesso. A pele enrugada por tantos solavancos, as unhas quebradas pelas batalhas e que perderam a capacidade de se regenerar, os órgãos enegrecidos e purulentos por feridas reabertas tantas vezes em vida, o miolo mole e cansado. Tudo vai virar comida enquanto constata que não há força em seus dedos para dar um peteleco naquelas criaturas miúdas que se servem de você sem cerimônia.

Paciência, novamente. Depois de cada mordiscada em suas entranhas, o novo surge. Assim, instantâneo, ou poucos minutos depois. O coração pode custar um pouco mais, então não se assuste com o oco no peito. E o cérebro vai entrar em curto circuito enquanto devorado, podendo haver apagões. Troca de fiação gera esse caos temporário.

Por sua vontade tudo continuaria da mesma forma de sempre: pus, marcas, feridas, miolos moles. Mas a vida não obsta da sua missão e vai impor muitas mortes em sua vida! É assim que funciona. Acostume-se a isso.

O novo surge quando o velho dá lugar a ele. Não antes, não quando queremos. E sempre haverá o que aprender e o que deixar pra trás.

É preciso ter a coragem de entregar-se aos ciclos e crer que a vida é mais sábia do que nós, superficiais e medrosos demais para promover, por vontade própria, todas as remoções de tecido morto necessárias.

Podemos nos agarrar à massa podre por medo da dor. É possível. Já encontrei muita gente impregnada do cheiro do chorume, em suas roupas, palavras, pensamentos, sentimentos, ações. Insuportável. Dignas de pena.

Um morto em vida resseca o que encontra pela frente. E sua visão torna-se turva. É muito grave. Gradativamente, perde a capacidade de reconhecer o amor nos detalhes e deixa de confiar. Triste.

Por isso, nos entreguemos. Confiemos. Vivamos a beleza dos ciclos de morte-em-vida. É assim que tudo se renova no mundo, e há de ser assim em nós também.  

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

E ela foi

E ela foi.
Não sem um porquê. Muitos
Tão intensos quanto a força que gerou aquele impulso de partir.
Então, ela virou e foi. E não desfez a volta. Sequer olhou para trás.
Não se sabe qual fluxo de pensamento a arrancou daquela roda da fortuna com a qual estava habituada.
Nem se do peito ou da cabeça saiu a ideia que foi vivida até o fim.
Ninguém olhou na sua direção.
Porque não esperavam que partisse.
Aguardavam o seu retorno, a rotina. O apego não pairava apenas sobre ela.
E aonde dela foi?
Uma questão sem gabarito.
Na verdade, pouco importa.
Seu feito heroico está no ir, no largar, na falta de despedida e de cartão postal na chegada.

Porque quem tem essa coragem, sempre chega onde quer.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A hora chega.

Preciso admitir. Eu não me amava.
Bastava que alguém acenasse com alguma atenção para que eu desistisse dos meus planos.
Bastava que alguém me enxergassem e seria exatamente como viam.
Moldava voz, moldava gostos, moldava personalidade. Modelagem ao gosto do freguês.
Não sabia quem era, pois nunca pude ser.
Atrevida, maluquinha, santa, compreensiva. Sempre às voltas com o que queriam de mim.
Mas tem uma hora que chega.
Chega de me moldar!
Chega de me adaptar!
Chega a hora de finalmente viver conforme minhas próprias regras.
A alma se revolta e o corpo trava. A mente entra em crise e o coração apenas sangra.
Cheguei a este ponto do caminho.
Como será a estrada? Não tenho ideia.
Apenas chegou o momento de não olhar para trás.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Falta e abundância.

Você já comeu kiwi?
Percebeu como ele é doce e levemente azedo ao mesmo tempo quando maduro? E como ele é "travoso" quando está amadurecendo?!
Talvez você nunca tenha sentido o azedume da fruta um pouco verde. Provavelmente porque não precisou esperar que amadurecesse, pois só a consumiu em algum preparo: na caipiroska, no suco, no doce, no picolé.
Eu costumava comer o kiwi numa receita fit de lanche que me passaram quando fiz uma dieta para perda de gordura e ganho de massa magra.
Comprava no supermercado e deixava na fruteira por uns três dias ou mais. Depois, guardava na geladeira junto com as outras frutas prescritas, todas no ponto para serem misturadas nas minhas receitas fit.
Queria perder alguma coisa, ganhar outra, e o kiwi era um coadjuvante nisso.
Quis o destino que eu ficasse dura. Lisa. Com o dinheiro contado.
Essa condição nos faz refletir muito sobre onde investir os parcos dinheirinhos e o supermercado é o ambiente propício para desenvolver tal habilidade.
Questionando-me sobre o que deveria realmente comprar, me vi diante da cesta de kiwis.
Peguei um e coloquei no canto do carrinho, mais atrás, para o caso de tê-lo a mão se sobrasse algum dinheiro.
Após passar todas as compras, ainda sobravam alguns poucos reais.
Pedi que pesassem o kiwi.
Apesar do valor salgado do quilo, pude levar!
Voltei para casa fazendo planos.
Receitas fit? Não. Não tinha ingredientes suficientes. E, sinceramente, nem pensei nisso.
O kiwi ia ser meu personagem principal.
Meus planos eram sobre o momento em que eu descascaria aquela linda fruta, observaria os tons de verde, as sementes pretas em torno do miolo esbranquiçado, e sentiria seu doce-um-pouco-azedo.
Quero fazer isso sentada na cama, olhando para o céu pela janela aberta e escrevendo algum texto sobre como a falta treina o nosso olhar para enxergar a abundância.


terça-feira, 4 de julho de 2017

GAF

Existe grupo de apoio para todo tipo de gente: mulheres que amam demais, pessoas que bebem demais, que se drogam demais, até para quem gasta demais.
Pois eu proponho a criação de um grupo de apoio aos fracassados. O GAF.
Seria o lugar ideal para ir depois de uma demissão, de um pé na bunda, de ter falido, de não ter alcançado a linha de chegada. Quando seu mundo desmoronar, rume para lá.
Não vai ser difícil de encontrar. Basta procurar pela única porta aberta.
Ali, todos os planos deram errado.
Não escapa um sem ter enfiado os pés pelas mãos.
Teimosos. Incapazes. Sonhadores. Incompetentes.
Chamam essa gente desafortunada por nomes como estes, pois insistem em defini-los pelo resultado de suas empreitadas sem olhar o caminho percorrido com dedicação e intensidade.
Só pode fracassar quem vai fundo o suficiente para se chocar contra as rochas.
Nesse mundo de amores líquidos, é privilégio ser capaz de se doar, apesar dos riscos.
Pergunto-me o que entende de sonhos quem nunca fracassou.
O que um ser 100% sucesso sabe a respeito de desejar profundo e buscar o que se quer, mesmo percorrendo uma estrada puro breu e onde a única certeza seja o tropeção?
Quem nunca fracassou optou por viver de maneira hipoalérgica. Só vai até o permitido. 
Mas os sonhos habitam algum lugar depois dessa fronteira.
No GAF, estão todos em caquinhos, tentando se remontar.
Dá até para trocar uma lasquinha de um com um pedaço de outro.
Colchas de retalhos.
Ninguém espera mais nada deles.

Podem se misturar e ver depois no que vai dar.