terça-feira, 9 de maio de 2017

#livroselições - EM BUSCA DE UM SENTIDO



O que a vida pode esperar de você?
Esta não é uma pergunta habitual.
Interessa-nos o contrário, o que a vida ainda tem para nos oferecer.
Dessa forma, avaliamos o nosso futuro, refletimos sobre o que estaria por vir e tomamos decisões. Como passarinhos no ninho, de bico arreganhado, aguardamos mamãe-pássaro caçar, digerir e depositar em nossa boca o alimento.
Inverta a pergunta, como feito acima, e perceba o peso dela. Nos colocamos como responsáveis por tornar a vida melhor, mais próspera, mais alegre, mais merecedora de ser vivida.
Essa é a mensagem que mais me tocou neste livro.
Viktor Frankl, autor da obra, era judeu, psicanalista e foi prisioneiro em campos de concentração, junto com toda a sua família. Apenas uma irmã e ele sobreviveram.
Depois da guerra, conseguiu retomar sua profissão e criou uma corrente chamada logoterapia que trabalha, não por acaso, com o efeito do sentido da vida no tratamento de pacientes.
O livro é dividido em duas partes. Primeiro vem os relatos sobre a rotina no campo. A segunda parte é dedicada às explicações sobre o que seria a logoterapia.
O cinema, o jornalismo, os livros de histórias, sobreviventes, testemunhas, oficiais nazistas e mais um monte de gente falou ao mundo sobre as atrocidades cometidas nos campos de concentração. Mas o relato de Frankl é único pela lucidez com que ele analisa, com a lente de psicologia, as próprias experiências e as dos companheiros e nos apresenta a principal regra para resistir em um campo de concentração: ter pelo que viver.
Mas veja, mesmo guardando para si a esperança e alimentando isso diuturnamente, a morte poderia chegar a qualquer momento. Então, Frankl se refere ao modo como se vive: um homem consciente em seus pensamentos e impulsos, que faz o melhor em meio ao terror, ou apenas um animal reagindo instintivamente e aguardando o fim.
Num certo dia, chorando de dor, congelando, faminto, pegou-se com pensamentos paranóicos sobre tudo o que poderia deixar sua vida ainda pior: ser enviado para algum campo que tivesse câmara de gás, não ter o que comer algo no dia seguinte, ser colocado em algum grupo de trabalho cujos sentinelas eram cruéis, adoecer e não poder trabalhar (isso aumentava enormemente as chances de ser executado),  etc.
Cansado da angústia que aqueles pensamentos lhe causavam, começou a refletir sobre as lições escondidas naquela situação e, de repente, se viu num salão grande palestrando sobre a psicologia nos campos de concentração. Isso mudou seu humor e lhe deu energia para mais um dia. Ah! E virou realidade muitos anos depois...
“Quem não consegue mais acreditar no futuro - no seu futuro - está perdido no campo de concentração. Com o futuro, tal pessoa perde o apoio espiritual, deixa-se cair interiormente e decai física e psiquicamente.”
Uma pessoa que teve a vivência de Frankl não poderia pensar diferente. Ele viu e sentiu o desespero na própria pele maltratada, e se manteve de pé por acreditar que havia algo além da barbaridade rotineira. Mas ele sabe que enxergar lições em meio ao caos não é fácil. Muitos companheiros seus sucumbiram ao desespero. Trata-se, então, de uma escolha pessoal.
“Sempre e em toda parte a pessoa está colocada diante da decisão de transformar a sua situação de mero sofrimento numa produção interior de valores.”
Em meio a todo o caos, Frankl percebeu que precisava fazer o máximo possível. Em alguns momentos, ouviu o desabafo dos companheiros com atenção, em outros comeu lentamente a pequena ração de pão para manter-se forte; muitas vezes, apenas resistiu e acalmou o coração. E entendeu que a vida nos pede as mais diversas atitudes, desde o silêncio a vigorosas ações. O importante, para ele, era sempre atender ao que ela pedia. O que a vida podia esperar dele.
“Não perguntamos mais pelo sentido da vida, mas nos experimentamos a nós mesmos como os indagados, como aqueles aos quais a vida dirige perguntas diariamente e a cada hora - perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta. Em última análise,  viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.”

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Ausência. Minha.

Na correria cotidiana, em meio a encontros e desencontros, sinto uma ausência.
A minha falta. Não me vejo faz bastante tempo.
Tenho me ocupado com uma outra, aquela que esperam de mim.
Pró-ativa, bem resolvida, decidida, de bem com a vida. Mato fome com duas castanhas e resolvo problemas numa corridinha de cinco-cá.
Eficaz, eficiente, paciente, independente. Máximo desempenho por fora, aconteça o que acontecer por dentro.
Feminista, feminina, puta, dama, doida, santa. Entre tantas faces, a mais conveniente.
Enquanto tentava empurrar tudo isso alma adentro, não tive coração que desse conta de sentir a sua presença, a minha.
Mas sei que está aí. Sinto.
Calmaria. Em algum lugar, sei que espera. Não é do seu feitio concorrer com todas essas vozes e ordens que sempre gritam ao meu ouvido e exigem atenção.
Paciência. Entende que, muitas vezes, não estou preparada. Teu encontro me faz esquecer as expectativas e eu ainda preciso de aprovações pra me sentir segura.
Silêncio. Com tanto barulho, sabe que é melhor continuar calada. Uma hora sentirei falta da sua voz.
Ao te ouvir, sentirei a minha força.
Reconhecerei tudo o que é meu.
E fluirei.
Entregarei-me ao que sou.
Minha melhor companhia.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

#livroselições - Os livros da Lourdes



Os livros da Lourdes apareceram na minha vida num momento bem peculiar: depois de um pé na bunda.
Na época, frequentava assiduamente o GEPE (Grupo Espírita Paulo e Estevão). Após os encontros de Estudos da Doutrina, da Terapia Espiritual, ou das palestras, sempre vagueava sem grandes intenções na livraria de lá.
Um dia, resolvi levar algum livro pra casa.
Contei o que estava vivendo para a moça do caixa e ela me indicou… a Lourdes!
Emmanuel? André Luis? Divaldo? Chico?
Não. Lourdes Possatto, uma psicóloga especializada em Gestalt-Terapia.
Devorei num único dia o “Relacionamentos Positivos”. Depois li “É tempo de mudança”.
E muitas luzes se acenderam.
Pude compreender porque sentia o que sentia, e que aliviar aquilo tudo dependia de mim.
O princípio de toda mudança é a aceitação da realidade.
Se nos sentimos tristes, inseguros, entediados, raivosos, devemos aceitar, pois é tudo real, faz parte de nós. Em seguida, precisamos buscar compreender porque esses sentimentos surgiram e enxergar a nossa parcela de contribuição para as situações.
Os sentimentos são indícios de que há feridas abertas na nossa alma, e a função deles é trazer à superfície essas questões não resolvidas para que possamos curá-las. Muitas vezes, essas feridas foram abertas lá atrás, na nossa infância, mas se manifestam na nossa vida, depois de muito tempo, em forma de ciúme, carência, rebeldia, dentre outras formas.
Então, quando o sofrimento bate à nossa porta, temos que ter a coragem de olhar para ele e receber a mensagem.

“Nossos grandes momentos de sofrimento ocorrem quando tentamos segurar a vida, porque tentamos resistir às mudanças que seriam necessárias em nosso dia-a-dia. A vida é pura flexibilidade, e quando queremos colocar moldes, regras de nosso ego, tudo pára. Se você não se aceita, se vive revoltado ou ansioso, angustiado, vivendo situações repetitivas ou empacado em algum aspecto, tente entender que a vida deve estar tentando lhe mostrar que precisa mudar algo, suas atitudes, suas crenças, seu jeito de pensar. Logo, podemos notar como é importante que entendamos como procedemos para podermos encarar e mudar as crenças defensivas introjetadas a partir de nossa infância, e isso significa o processo de autoconhecimento.” (pg 62, É tempo de mudança)

Autoconhecimento e auto responsabilidade. Essa é a base do que a Lourdes pensa.
Tudo parte do entendimento de que temos sim autonomia sobre nós mesmos, independente do nível de stress, tristeza ou frustração que a gente sinta.
Ela coloca alguns princípios:
  • Você é 100% responsável por si mesmo;
  • Nada acontece por acaso;
  • Tudo o que nos acontece é porque temos capacidade de lidar com isso;
  • Sempre foi assim, nós é que não tínhamos consciência;
  • Tudo serve para que tenhamos cada vez mais consciência, ou seja, serve para aprendermos e evoluirmos;
A visão dela sobre doenças emocionais é bem interessante.
Uma depressão, por exemplo, surge para te obrigar a resolver algo que machuca a sua alma e mudar. Como o “apagão” que temos quando bebemos demais. O corpo “desliga” a gente pra não acontecer coisa pior, como a morte!
Na depressão, o corpo, ou a alma, não sei, obriga o indivíduo a investigar o porquê de tanta dor e angústia. Assim, a única solução para sair daquele estado é buscar compreender e curar as feridas da alma.
Veja só! Até o mal do século pode ser visto como uma bênção.
Já percebi essa visão em outros psicólogos da Gestalt. Esse olhar espiritual pras coisas da vida. Tudo tem um motivo e tudo é bênção.
Admito, é um ponto de vista.
Mas, verdade ou não, faz viver melhor.
Eu enxergo sentido nisso. Muita coisa que me magoou quando aconteceu, depois se mostrou uma dádiva, pois abriu portas para situações melhores.
Bem bacana esse comentário dela:

“Jung foi o primeiro pensador moderno a definir o misterioso fenômeno das coincidências. Ele o chamou de sincronicidade - a percepção da coincidência significante. Também dizia que a sincronicidade era um princípio sem causa no universo, uma lei que funcionava para mover os seres humanos na direção do crescimento maior da sua consciência. Assim, em prol do nosso próprio crescimento, a pergunta que sempre precisamos nos fazer é: ‘Se isso está acontecendo, para que serve? O que temos de aprender com isso?’, a fim de tomarmos consciência das coisas que acontecem para que percebamos o seu propósito, o porquê de estarmos aqui; e é nisso e na compreensão de tudo isso que consiste o processo de mudança” (pg. 28, É tempo de mudança.)

Um tema recorrente é a relação entre pensamento e sentimento, e como as conclusões geram stress.
Explico.
Um paciente dela estava passando por um momento difícil de vida, trabalhando muito, e acabou tirando nota baixa numa prova. Mas o rapaz tinha uma autocobrança feroz e passou a se sentir fracassado, a sofrer com isso e dizia a si mesmo que aquilo era a prova de que ele nunca ia se dar bem na vida. Ou seja, um fato (a nota baixa) justificado (não teve tempo para estudar) levou a uma conclusão negativa e generalista (não ia se dar bem na vida).
Ouvi outro dia uma frase interessante: não tenha medo do diabo e nem fuja dele, porque ele já está dentro de você.
Ou seja, autorresponsabilidade, até com nossos pensamentos, é a chave para menos sofrimento. Não é menos problema, ok. Ao menos uma vida mais leve podemos ter.
Ela também fala uma coisa super bacana sobre o desânimo. Ânimo vem de anima, alma, então seria a “falta de alma”. Nos sentimos desanimados quando estamos fazendo algo em desacordo com a nossa alma, e deveríamos mudar aquela situação, ir fazer o que nos dá ânimo, ou enxergar melhor aquela atividade e transformar o sentimento sobre ela.
Mas no geral, nos culpamos muito pelo sentimento de desânimo, junto com isso, vem o tédio e a preguiça:

“A sensação de tédio, além das cobranças, pode significar o quanto não está sendo prazeroso, compensador ou válido o que você está fazendo. Questione e sinta, abra espaço para se perguntar sobre a validade de continuar a fazer algo tão tedioso; para que serve; quais as vantagens; a quem você está querendo agradar; quais os medos em parar com isso? Esses questionamentos podem ser altamente benéficos para que você entre em contato com o seu sentir e com vontades verdadeiras, e comece a perceber suas necessidades emocionais a fim de se auto-suprir e parar de esperar que esse suprimento venha de fora.” (pg. 110, É tempo de mudança)

Os dois livros da Lourdes foram meus conselheiros em muitos momentos. Sempre que eu me sentia mal com alguma coisa, vítima de alguma situação, culpando pessoas pelo que me acontecia, buscava suas palavras. E a mensagem era sempre a mesma: autonomia. Perceber que sentimento eu precisava curar e que eu era a única responsável pela minha felicidade.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

#livroselições - A ALMA IMORAL



Não tenho a menor ideia de onde vi a citação sobre este livro, mas lembro que fiquei curiosa com o título e fui pesquisar sobre ele quase imediatamente.
A alma IMORAL, de Nilton Bonder, um rabino brasileiro e autor de diversos títulos.
Citando trechos da Bíblia, do Talmud, os livros sagrados dos judeus, e diversos rabinos e teólogos da religião judaica, Nilton nos apresenta a “imoralidade” da alma.
Você vai encontrá-lo na sessão Religião da livraria, mas a mensagem vai muito além.

“Este livro busca refletir sobre a imprescindível imoralidade da alma - sobre seu constante questionamento e crítica à moral do corpo.”

O autor começa fazendo uma longa reflexão sobre a natureza do homem do ponto de vista da psicologia evolucionista, do darwinismo e da religião. Tudo isso para explicar os dois conceitos principais do livro: o que seria o corpo moral e a alma imoral.

A moral seriam as regras impostas, seja pela família, sociedade, cultura, religião ou qualquer outra instituição, ou seja, o que está posto e nos indica o melhor a ser feito, o correto, o coerente, o ponderado.
A alma, por outro lado, é questionadora, transgressora, não observa as regras. E a função dela é essa mesma, quebrar as regras e nos colocar em movimento, nos levar para fora do lugar estreito e abrir caminho no nada, no desconhecido.

Sobre isso, o autor faz uma analogia com a saída do povo hebreu do Egito.
Vamos puxar da memória as lições do catecismo. Ou vamos dar uma olhadinha no Netflix. Têm alguns filmes sobre esse episódio lá…

Não é difícil imaginar o desespero dos hebreus quando se viram encurralados entre um mar revolto e um exército inclemente. Certamente passou pela cabeça de muitos que a ideia de sair do Egito era idiota, no mínimo. Melhor manter-se seguro num ambiente conhecido, mesmo que hostil e degradante. Um sentimento muito familiar a todos os seres humanos. Quantas pessoas se mantém assim, sofrendo no conhecido, e evitam ao máximo arriscar algo melhor simplesmente por terem que encarar o desconhecido?
O trecho traz uma reflexão sobre isso:

“Quando resolvemos sair do lugar estreito, ocorre um processo semelhante com o corpo. O corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que o convencem de que não existe outra saída. Mas para onde ir se o corpo não conhece nada diferente de si mesmo? A alma, imora em sua proposta de desalojamento do corpo, impõe uma caminhada que para o corpo acaba por ser um enfrentamento com uma barreira aparentemente intransponível. Como seguir rumo à “terra prometida”, ao futuro, se entre o presente e ela existe um fosso, um mar, absoluto. O corpo então questiona a sensatez da alma. Os portões do passado se fecham, os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações - o pânico de se extinguir.” (pg. 47)

Nossa alma está sempre afrontando o nosso corpo, ou seja, o status quo. Porque queremos a segurança do conhecido, do que é aceito. A moral não aceita questionamentos. Mas é preciso que alguém rompa com o estabelecido, mesmo que num ato de autossacrifício. Dessa forma o homem evolui, progride e transforma não só a sua vida, como a de todos.

“A alma imoral está em constante processo de sabotagem à ordem estabelecida.”

Nosso papel neste mundo é alargar todas as fronteiras, todos os padrões. E esse desafio não é pequeno. A quantas regras estamos confortavelmente submetidos, mesmo discordando redondamente delas? O corpo perfeito, o trabalho perfeito, a vida perfeita, o casamento perfeito. Pautamos nossas vidas a regras opressoras mesmo sabendo que são questionáveis, por comodismo e medo.

A alma reconhece a estreiteza da moral e nos empurra a romper com isso. Tentamos nos ajustar ao que nos dizem ser o certo enquanto não temos a coragem de ouvir os gritos por liberdade da nossa alma. E ficamos ali, parados, estáticos, enquanto crescemos sem perceber. Apertamos os cintos, e nos encolhemos ao máximo. Mas a alma não permite que fiquemos parados e, num determinado momento, ela se faz ouvir.

Porém, isso não é um processo harmonioso do “lado de fora”. É violento. Choca. Dá medo. Porque sabemos o que vai acontecer. Rejeição. Solidão. Seria mais fácil, aparentemente, nos mantermos lá no mesmo lugar, fazendo sempre o mesmo. Mas a alma imoral e transgressora não nos dá essa opção. Ela exige que a gente cumpra nossa missão, que é crescer ao máximo, ir além, mesmo que pagando algum preço por isso.

“O ato de retirar a máscara - e que arranca junto o rosto antes percebido - permite que surja uma nova cara. Não há manual de obediência que nos complete a identidade. Nossa identidade se dá também pela desobediência ou pelo vazio que é a experiência ainda não experimentada, o futuro que ninguém ainda viveu.”

Os hebreus ficaram um tempo acampados na beira do Mar Vermelho antes dos egípcios virem tentar capturá-los. A ordem divina era que marchassem em direção ao mar, mas eles não o fizeram por medo. Compreensível, sejamos sinceros. Diz a tradição judaica que um homem chamado Nachson teve a coragem de marchar em direção ao mar e, quando a água estava na altura do seu nariz, o mar se abriu. Ele compreendeu a orientação de “D’us”!
Quero encerrar por aqui com um trecho que reflete sobre esse fato.

“O futuro existe se vocês marcharem. O futuro, porém, não está ligado ao presente pelo corpo. A alma é que guiará o caminho seco por meio do molhado, de um corpo a outro ou de uma margem a outra. Saber abrir mão desse corpo na fé de que outro se constituirá é saber dar o passo que leva até onde ‘não dá mais pé’. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos. Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio que magicamente se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível” (pg. 50)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Mantenha-se em movimento.

Sou uma geminiana típica. Tenho sempre umas mil ideias geniais todos os dias, mas vou em frente com metade disso. Até começo a realizá-las, mas é provável que largue “de mão” boa parte logo no começo por elas não serem tão interessantes quanto eram quando ainda estavam no papel. Daquelas que me despertarem a vontade de perseverar, é ainda provável que eu abandone uma parte perto do final porque, possivelmente, outras tantas ideias surgirão e despertarão minha curiosidade, e eu estarei enlouquecida querendo saber mais sobre esses novos assuntos. E o ciclo inicia.
Cursos, viagens, receitas, jardins, textos. A lista de projetos abandonados é bem longa e a angústia sempre passa um bom tempo corroendo meus pensamentos. “Irresponsável”, “não termino nada”, “jogo dinheiro fora” e mais um monte de frases e adjetivos pouco positivos ao meu respeito inundam a minha mente toda vez que eu decido abandonar algum projeto. Já me culpei muito por essa minha tendência a começar muita coisa e terminar umas poucas.
Um belo dia li algo sobre pessoas multipotenciais e me redimi comigo mesma. O texto dizia que algumas pessoas possuem interesses os mais variados possíveis, muitas vezes divergentes. Elas seriam movidas pela pura curiosidade e vontade de aprender. E pronto! Podemos todos seguir em paz!
Ao ler sobre esse sujeito, com o qual me identifico muito, percebi que acima de qualquer coisa está a vontade de aprender. É isso o que o multipotencial, eu, e mais um galera, sentem: desejo por ampliar o próprio mundo através de novos e instigantes conhecimentos. Do tricô ao tarô, das novas técnicas de maquiagem às descobertas sobre novos planetas. Porque é isso mesmo, a gente gosta é de aprender!
Sim, eu poderia falar alemão fluentemente. Ou poderia estar num nível avançado em um curso qualquer que comecei e depois acabei largando. Mas, não larguei esses projetos para ficar fuçando a vida do povo no Facebook. Fiquei o tempo que achei necessário, e depois parti para experiências que estavam mais alinhadas ao meu momento e despertavam meu interesse.
Percebo que o mais importante é manter-se em movimento. O bom e velho hábito de ocupar a mente é o melhor que podemos fazer por nós mesmos. Quanto mais ocupados, quanto mais buscarmos conhecimento, melhor pra nós. Mais próspera e interessante será a nossa vida. O interesse por um determinado assunto pode morrer depois de poucas aulas, mas o conhecimento que acumulamos nunca se perde. E o desejo por aprender está lá, no DNA!
Não estou pregando a falta de foco. Pelo contrário. Só acho que a vida é ampla demais pra nos prendermos a metas e promessas.
Quero dizer àquelas pessoas que largam o que não lhes interessa mais e partem para novos desafios isso: “Tamu junto!”. Pra que perder tempo quando sabemos que outros coelhos mais legais, curiosos e desconhecidos sairão de outros matos mais legais, curiosos e desconhecidos?

sábado, 18 de março de 2017

A arte (necessária) de largar o que quiser.

Já comecei e larguei um monte de coisas que, num certo momento, eram TUDO o que eu queria fazer da minha vida!
Seja um curso, seja ler um livro, seja uma mobília, um amor, um amigo, uma viagem, um sonho!
Sou a rainha da aula experimental, a propósito.
Sempre cadastro meu email nessas landing pages e baixo qualquer ebook que oferecem.
E tenho um quartinho dos sonhos abandonados, onde eu botei meus óculos de natação e minha bicicleta para o triathlon que não realizei, meus livros de estudos pro concurso do Itamaraty, minha esteirinha da yoga que larguei há tempos, meus CDs da aula de canto. A calça do Krav Magá tá na porta...
Gosto mesmo de experimentar. De aulas a relacionamentos.
Faz parte da minha medida de realização pessoal a quantidade de experiências que vivi e conhecimentos que acumulei.
Algumas experiências eu repetiria muitas vezes, de outras até me arrependo. Mas algo em mim, graças a Deus/ ao Universo/ à Força Superior, percebe essas piores experiências como capítulos do livro da vida devidamente estudados. Claramente, isso é uma metáfora que eu criei pra proteger meu ego frágil. Porque sempre dá uma sensação de derrota começar algo e desistir depois. Principalmente quando você falou empolgado sobre aquilo pra todo mundo. Até postou fotinhas no Insta/Face/Snap/tudo-de-rede-social-que-existe!
O blog existe por e graças a isso: as coisas que eu percebo nessas experiências se transformam em inspiração pra escrever.
E devo confessar: as piores cagadas se transformam nos melhores textos.
Acho que a experiência de viver é isso mesmo, dar vazão às várias influências que recebemos. Serve pra mim por um tempo, e depois eu largo. Mas alguém vê aquilo em mim e adota, porque se encaixa no momento que está vivendo. Enfim! Às vezes, as coisas não vêm só pra nós, mas pra alguém que será inspirado por nós. E nos transformamos nessa ponte maravilhosa da inspiração pra quem precisa recebê-la. De roupa a atitudes!
Acho super importante saber descartar sonhos e projetos.
Assim como retardamos demais pra começar alguns, podemos não soltar outros com a brevidade necessária para estarmos livres pros próximos mais coerentes com nosso momento. E por puro medo, apenas. Medo de ser julgado, de jogar fora “tanta coisa” que construímos. Pobres humanos de visão limitada!
Porque não estou aqui nesse mundo pra falar inglês fluente, ou pra ser um químico, mas pra ser o máximo que posso ser. Talvez esteja incluído nesse projeto falar fluente um idioma e ter uma graduação. Talvez não. É aquela velha história, cada um tem a sua caminhada.Só eu posso saber o momento de começar, de parar, de partir. Porque a história é minha...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Bem-vindo ao amor real.

Como dá medo amar o falho, o imperfeito, o que não é 100% garantido. A gente sempre espera muito daquilo que ama, porque não existe amor sem investimento de energia e tempo e vamos certamente querer o mesmo de volta, do mesmo jeito, da mesma forma, na mesma intensidade. Insuportável não receber isso.


Fazer, buscar, viver, ser o que se quer de verdade. Tudo isso é arriscado demais.
Se não vingar, perde-se tudo. Porque muitas vezes a gente tem que agir diferente do que dizem ser certo, então não se trata de mais uma ou outra frustração nas curvas da vida, mas uma derrota, a prova de que não sabemos de nada e é melhor ficar quietos no cantinho e parar de inventar moda…


Portanto, só suportamos um amor com garantias. Só que isso não existe...


Eu acho que a gente sempre sabe o que quer de verdade. Mas isso exige de nós a capacidade de perceber a felicidade no simples fato de estar vivendo aquilo que o coração tanto deseja. Isso dá uma paz pra alma! Não vai ser como pensamos, provavelmente menos festivo, menos confortável. Mas vai trazer uma vitalidade incrível, e alegria espontânea. É isso o acontece quando vivemos o que queremos, verdadeiramente.


Pra mim, o amor até começa com um sentimento, um aquecer na alma, mas pra ser de verdade, tem que ter aposta. Acho isso, quem ama investe, acredita e vai, ou fica e espera um pouco. Mas compreende que não é confortável e nem por isso se melindra e desiste. Porque vale a pena, dizem. Sentem!

Comentei sobre isso com uma pessoa iluminada que Deus/o Universo/a Força Superior botou na minha vida. Conversamos bastante sobre como o amor exige aposta e ser capaz de percebê-lo quando tem formas diferentes das nossas, e que assim mesmo é tudo amor. Aí ela me disse “bem vinda ao amor real”. Eu gostei disso.