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terça-feira, 6 de junho de 2017

#livroselições - A ARTE DE AMAR


Poucos assuntos foram tão abordados quanto o amor. Nada vale sem ele, fuja enquanto pode, tenha a sorte de um tranquilo, tem que merecer, é redenção, é desgraça. Na mais acalorada conversa de bar ou nos ambientes da erudição, todo mundo já refletiu, ao menos por um momento, sobre ele.

Construções filosóficas à parte, no geral, nos consideramos entendedores do amor. Por direito, a propósito! Difícil quem não o vivenciou nas suas múltiplas formas. E dependerá disto a importância e o viés que se dá.

Há os que evitam por terem vivido experiências negativas. Apesar de, provavelmente, isso ter mais a ver com os envolvidos que com o amor. Mas o pobrezinho acaba sendo responsabilizado pelas ações de cabeças e corações confusos. Típico do amor. Tudo suporta.

Sempre pensei nisso como algo que acontece. Então, bastaria ter a capacidade de sentir sua presença para encontrá-lo, como um caçador de tesouros que arrasta um detector de metais pela praia na esperança de achar algum artefato esquecido na areia. E tudo estaria resolvido.

Mas Erich Fromm me tirou da cômoda posição de expectador. Ele afirma, em sua prosa poética, que amar é arte, ofício como outro qualquer. E, como tal, pode ser aprendido e aprimorado. Ou seja, ele afirma que amor é ação.

“É o amor uma arte? Se o é, exige conhecimento e esforço. Ou será o amor uma sensação agradável, que se experimente por acaso, algo em que se ‘cai’ quando se tem sorte? Este livrinho baseia-se na primeira hipótese, embora indubitavelmente a maioria das pessoas, hoje, acredite na segunda. Não é que se pense que o amor não é importante. Todos sentem fome dele; assistem a infindável número de filmes sobre histórias de amor, felizes e infelizes, ouvem centenas de sovadas canções que falam de amor e, contudo, quase ninguém pensa haver alguma coisa a respeito do amor que necessite ser aprendida.”

Essa concepção do amor romântico, centrada no “objeto do amor”, é coisa nova. Os casamentos foram, por muito tempo, contratos com objetivos sociais. Depois, passamos a procurar “objetos humanos” (na palavra do autor) que mereçam nosso amor, que correspondam ao melhor “disponível no mercado, considerando as limitações de seus próprios valores cambiais”, como típicos indivíduos de uma sociedade de consumo.

Nos preocupamos em ser amáveis. Os homens buscam poder e sucesso, as mulheres batalham para serem atraentes. Todos moldam seus trejeitos para encantar, para conquistar amigos e influenciar pessoas. Acreditamos que no amor tudo é uma questão de encontrar o objeto perfeito, e ser um, ao mesmo tempo.

Fromm diz que não poderíamos estar mais enganados.

O amor genuíno é visto no fazer. Por exemplo, nas ações da mãe pelo seu filho: suprir, cuidar, educar.

Quando há amor, responde-se pelo objeto deste. É possível perceber que a agressividade momentaneamente, por exemplo, significa medo, angústia. Porque enxerga-se, além de si mesmo, a outra pessoa em seus próprios termos.

“Amor é preocupação ativa pela vida e crescimento daquilo que amamos. Onde falta essa preocupação ativa não há amor.”

Imaginamos ativas as pessoas que trabalham, estudam, constroem casa, cozinha; enquanto que dedicar um tempo a refletir, em contato com a própria alma, é visto como passividade. Mas é passivo quem executa atividades obedecendo a uma ordem que não é a sua, é apenas impelido a isso; enquanto que somente estando livre é possível praticar o amor.
“O amor é uma atividade, e não um afeto passivo; é um ‘erguimento’ e não uma ‘queda’. De modo geral, o caráter ativo do amor pode ser descrito afirmando-se que o amor, antes de tudo, consiste em dar, e não em receber.”

Entremos então na questão do dar-se, tão vinculada ao amor. Às vezes, se assemelha a perder, ceder, abandonar, diminuir o pouco que se tem. Porém, é o ápice de nossa potência. Só damos o que temos, o que temos de abundante e o que fazemos com maestria.

“Dar é mais alegre do que receber, não por ser uma provação, mas porque, no ato de dar, encontra-se a expressão de minha vitalidade.”

Erich Fromm cita a passagem bíblica que relata a ida de Jonas à Nínive.
Mesmo odiando aquela cidade, o profeta faz a pregação aos ninivitas, conforme missão da qual Deus lhe incumbiu. No caminho de volta, uma árvore cresce de repente e o profeta se abriga e descansa embaixo de sua sombra. Mas ela é atacada por vermes e morre. Conta a Bíblia que ele se revolta com isso e Deus, pai maravilhoso, lhe dá uma bela lição de amor. Jonas importa-se com uma árvore que nada fez para que nascesse ou crescesse, então Deus não deveria poupar centenas de milhares de vidas que fez nascer e se desenvolver, mas que estavam, momentaneamente, desviadas de seu caminho e necessitadas de sua misericórdia?

Pra mim, esta foi a grande lição deste livro: quem ama age, faz, trabalha.

Porque amor é verbo.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

#livroselições - A CORAGEM DE SER IMPERFEITO


Criar um filho, dedicar-se a um relacionamento, cultivar amizades, lutar por um sonho. Isso tudo pode nos trazer os melhores momentos de nossa vida. Ao mesmo tempo, também pode nos causar os maiores sofrimentos.
Amar nos deixa vulneráveis e é assustador, mas você imagina viver uma vida plena sem amor, apenas para se proteger do mal que isso pode lhe causar?


Este livro fala sobre isso, entregar-se ao momento e aceitar a vulnerabilidade implicada nisso como condição essencial pra uma vida feliz e plena. E não é achismo! Brené Brown, a autora, pesquisa há anos  como vulnerabilidade e felicidade caminham juntas.
“Quando estamos vulneráveis é que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade, a confiança e a autenticidade. Se desejamos uma clareza maior em nossos objetivos ou uma vida espiritual mais significativa, a vulnerabilidade com certeza é o caminho. Sei que é difícil acreditar nisso, sobretudo quando passamos tanto tempo achando que vulnerabilidade e fraqueza são sinônimos, mas é a pura verdade. Vulnerabilidade é incerteza, risco e exposição emocional.”


Brené, que sempre esteve nos bastidores, se viu, de repente, na posição de observada quando foi palestrante de uma das edições do TED, o que lhe causou muito medo.
Como preparação, resolveu assistir a algumas palestras e percebeu que as melhores foram feitas por pessoas que se expuseram e contaram a sua verdade. Essa autenticidade prendia a atenção da plateia, que se apaixonava pelo palestrante de imediato.
Ou seja, a vulnerabilidade do outro encantava.
Então, ela percebeu que não havia como imitar qualquer daquelas pessoas. Ela precisava dizer a sua verdade, da sua forma.
Quando subiu ao palco, lançou duas perguntas à plateia. Primeiro, quem ali procurava se esforçar para não ser vulnerável porque relacionava vulnerabilidade com fraqueza. Muitos levantaram as mãos. Depois, perguntou quem considerava uma grande coragem palestrar num evento como o TED. Todos levantaram as mãos.
Ou seja, vulnerabilidade é coragem em você e fraqueza em mim.
Essa confusão entre vulnerabilidade e fraqueza não era novidade para Brené, pois havia surgido também nas entrevistas que fez para sua pesquisa. Para tornar a vulnerabilidade um conceito mais palpável, a autora pedia aos entrevistados que completasse a seguinte frase:
“Vulnerabilidade é _______________”
Eis algumas das respostas: expressar uma opinião impopular, começar meu negócio próprio; pedir ajuda, decidir colocar a mãe num asilo; escutar o filho dizer que seu sonho é reger uma orquestra, mesmo sabendo que isso provavelmente nunca vai acontecer; mostrar alguma coisa que escrevi ou alguma obra artística que tenha criado; pedir perdão; ter fé.
Essas ações definitivamente não são fraquezas?
“Verdade e coragem nem sempre são confortáveis, mas nunca são fraquezas. É verdade que quando estamos vulneráveis ficamos totalmente expostos, sentimos que entramos numa câmara de tortura (que chamamos de incerteza) e assumimos um risco emocional enorme. Mas nada disso tem a ver com fraqueza.”
Ao confundir vulnerabilidade com fraqueza, nos fechamos para a possibilidade de que nos vejam como somos. Criamos máscaras de supostas fortalezas, mas que apenas nos mantém distantes tanto de nós mesmos quanto das pessoas.
Estar vulnerável é sair da zona de conforto. E sabemos o que acontece por lá.
“Vulnerabilidade não é fraqueza; e a incerteza, os riscos e a exposição emocional que enfrentamos todos os dias não são opcionais. Nossa única escolha tem a ver com o compromisso. A vontade de assumir riscos e de se comprometer com a nossa vulnerabilidade determina o alcance de nossa coragem e a clareza de nosso propósito. Por outro lado, o nível em que nos protegemos de ficar vulneráveis é uma medida de nosso medo e de nosso isolamento em relação à vida.”
Há muita coisa linda no livro, mas não posso deixar de citar a parte em que ela aborda a vergonha.
Em resumo, ela é o medo de não se sentir bom o suficiente e perder o amor, carinho, atenção das pessoas. E travamos para que isso não aconteça.
A vergonha é intensamente dolorosa. A autora cita uma pesquisa do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos que compara o constrangimento da rejeição social ao sofrimento físico. É uma dor real!
A solução pra isso é resiliência, buscar maneiras de se recuperar do trauma.
A primeira coisa que se deve fazer é reconhecer a vergonha. Não negue o sentimento. Ele é universal. Todo mundo sente.
É importante trazer os pensamentos à luz da racionalidade. Está se repreendendo por que? Se culpando? Se considerando insuficiente, incompetente, um horror de pessoa? Questione isso. Certamente você agiu corretamente em muitos momentos da sua vida, e aquele é apenas mais um, que não lhe define. Se possível, compartilhe o fato com alguém que possa lhe apoiar. Esconder a vergonha é o mesmo que dar força a ela.
E siga em frente…

terça-feira, 9 de maio de 2017

#livroselições - EM BUSCA DE UM SENTIDO



O que a vida pode esperar de você?
Esta não é uma pergunta habitual.
Interessa-nos o contrário, o que a vida ainda tem para nos oferecer.
Dessa forma, avaliamos o nosso futuro, refletimos sobre o que estaria por vir e tomamos decisões. Como passarinhos no ninho, de bico arreganhado, aguardamos mamãe-pássaro caçar, digerir e depositar em nossa boca o alimento.
Inverta a pergunta, como feito acima, e perceba o peso dela. Nos colocamos como responsáveis por tornar a vida melhor, mais próspera, mais alegre, mais merecedora de ser vivida.
Essa é a mensagem que mais me tocou neste livro.
Viktor Frankl, autor da obra, era judeu, psicanalista e foi prisioneiro em campos de concentração, junto com toda a sua família. Apenas uma irmã e ele sobreviveram.
Depois da guerra, conseguiu retomar sua profissão e criou uma corrente chamada logoterapia que trabalha, não por acaso, com o efeito do sentido da vida no tratamento de pacientes.
O livro é dividido em duas partes. Primeiro vem os relatos sobre a rotina no campo. A segunda parte é dedicada às explicações sobre o que seria a logoterapia.
O cinema, o jornalismo, os livros de histórias, sobreviventes, testemunhas, oficiais nazistas e mais um monte de gente falou ao mundo sobre as atrocidades cometidas nos campos de concentração. Mas o relato de Frankl é único pela lucidez com que ele analisa, com a lente de psicologia, as próprias experiências e as dos companheiros e nos apresenta a principal regra para resistir em um campo de concentração: ter pelo que viver.
Mas veja, mesmo guardando para si a esperança e alimentando isso diuturnamente, a morte poderia chegar a qualquer momento. Então, Frankl se refere ao modo como se vive: um homem consciente em seus pensamentos e impulsos, que faz o melhor em meio ao terror, ou apenas um animal reagindo instintivamente e aguardando o fim.
Num certo dia, chorando de dor, congelando, faminto, pegou-se com pensamentos paranóicos sobre tudo o que poderia deixar sua vida ainda pior: ser enviado para algum campo que tivesse câmara de gás, não ter o que comer algo no dia seguinte, ser colocado em algum grupo de trabalho cujos sentinelas eram cruéis, adoecer e não poder trabalhar (isso aumentava enormemente as chances de ser executado),  etc.
Cansado da angústia que aqueles pensamentos lhe causavam, começou a refletir sobre as lições escondidas naquela situação e, de repente, se viu num salão grande palestrando sobre a psicologia nos campos de concentração. Isso mudou seu humor e lhe deu energia para mais um dia. Ah! E virou realidade muitos anos depois...
“Quem não consegue mais acreditar no futuro - no seu futuro - está perdido no campo de concentração. Com o futuro, tal pessoa perde o apoio espiritual, deixa-se cair interiormente e decai física e psiquicamente.”
Uma pessoa que teve a vivência de Frankl não poderia pensar diferente. Ele viu e sentiu o desespero na própria pele maltratada, e se manteve de pé por acreditar que havia algo além da barbaridade rotineira. Mas ele sabe que enxergar lições em meio ao caos não é fácil. Muitos companheiros seus sucumbiram ao desespero. Trata-se, então, de uma escolha pessoal.
“Sempre e em toda parte a pessoa está colocada diante da decisão de transformar a sua situação de mero sofrimento numa produção interior de valores.”
Em meio a todo o caos, Frankl percebeu que precisava fazer o máximo possível. Em alguns momentos, ouviu o desabafo dos companheiros com atenção, em outros comeu lentamente a pequena ração de pão para manter-se forte; muitas vezes, apenas resistiu e acalmou o coração. E entendeu que a vida nos pede as mais diversas atitudes, desde o silêncio a vigorosas ações. O importante, para ele, era sempre atender ao que ela pedia. O que a vida podia esperar dele.
“Não perguntamos mais pelo sentido da vida, mas nos experimentamos a nós mesmos como os indagados, como aqueles aos quais a vida dirige perguntas diariamente e a cada hora - perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta. Em última análise,  viver não significa outra coisa que arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.”

quinta-feira, 27 de abril de 2017

#livroselições - Os livros da Lourdes



Os livros da Lourdes apareceram na minha vida num momento bem peculiar: depois de um pé na bunda.
Na época, frequentava assiduamente o GEPE (Grupo Espírita Paulo e Estevão). Após os encontros de Estudos da Doutrina, da Terapia Espiritual, ou das palestras, sempre vagueava sem grandes intenções na livraria de lá.
Um dia, resolvi levar algum livro pra casa.
Contei o que estava vivendo para a moça do caixa e ela me indicou… a Lourdes!
Emmanuel? André Luis? Divaldo? Chico?
Não. Lourdes Possatto, uma psicóloga especializada em Gestalt-Terapia.
Devorei num único dia o “Relacionamentos Positivos”. Depois li “É tempo de mudança”.
E muitas luzes se acenderam.
Pude compreender porque sentia o que sentia, e que aliviar aquilo tudo dependia de mim.
O princípio de toda mudança é a aceitação da realidade.
Se nos sentimos tristes, inseguros, entediados, raivosos, devemos aceitar, pois é tudo real, faz parte de nós. Em seguida, precisamos buscar compreender porque esses sentimentos surgiram e enxergar a nossa parcela de contribuição para as situações.
Os sentimentos são indícios de que há feridas abertas na nossa alma, e a função deles é trazer à superfície essas questões não resolvidas para que possamos curá-las. Muitas vezes, essas feridas foram abertas lá atrás, na nossa infância, mas se manifestam na nossa vida, depois de muito tempo, em forma de ciúme, carência, rebeldia, dentre outras formas.
Então, quando o sofrimento bate à nossa porta, temos que ter a coragem de olhar para ele e receber a mensagem.

“Nossos grandes momentos de sofrimento ocorrem quando tentamos segurar a vida, porque tentamos resistir às mudanças que seriam necessárias em nosso dia-a-dia. A vida é pura flexibilidade, e quando queremos colocar moldes, regras de nosso ego, tudo pára. Se você não se aceita, se vive revoltado ou ansioso, angustiado, vivendo situações repetitivas ou empacado em algum aspecto, tente entender que a vida deve estar tentando lhe mostrar que precisa mudar algo, suas atitudes, suas crenças, seu jeito de pensar. Logo, podemos notar como é importante que entendamos como procedemos para podermos encarar e mudar as crenças defensivas introjetadas a partir de nossa infância, e isso significa o processo de autoconhecimento.” (pg 62, É tempo de mudança)

Autoconhecimento e auto responsabilidade. Essa é a base do que a Lourdes pensa.
Tudo parte do entendimento de que temos sim autonomia sobre nós mesmos, independente do nível de stress, tristeza ou frustração que a gente sinta.
Ela coloca alguns princípios:
  • Você é 100% responsável por si mesmo;
  • Nada acontece por acaso;
  • Tudo o que nos acontece é porque temos capacidade de lidar com isso;
  • Sempre foi assim, nós é que não tínhamos consciência;
  • Tudo serve para que tenhamos cada vez mais consciência, ou seja, serve para aprendermos e evoluirmos;
A visão dela sobre doenças emocionais é bem interessante.
Uma depressão, por exemplo, surge para te obrigar a resolver algo que machuca a sua alma e mudar. Como o “apagão” que temos quando bebemos demais. O corpo “desliga” a gente pra não acontecer coisa pior, como a morte!
Na depressão, o corpo, ou a alma, não sei, obriga o indivíduo a investigar o porquê de tanta dor e angústia. Assim, a única solução para sair daquele estado é buscar compreender e curar as feridas da alma.
Veja só! Até o mal do século pode ser visto como uma bênção.
Já percebi essa visão em outros psicólogos da Gestalt. Esse olhar espiritual pras coisas da vida. Tudo tem um motivo e tudo é bênção.
Admito, é um ponto de vista.
Mas, verdade ou não, faz viver melhor.
Eu enxergo sentido nisso. Muita coisa que me magoou quando aconteceu, depois se mostrou uma dádiva, pois abriu portas para situações melhores.
Bem bacana esse comentário dela:

“Jung foi o primeiro pensador moderno a definir o misterioso fenômeno das coincidências. Ele o chamou de sincronicidade - a percepção da coincidência significante. Também dizia que a sincronicidade era um princípio sem causa no universo, uma lei que funcionava para mover os seres humanos na direção do crescimento maior da sua consciência. Assim, em prol do nosso próprio crescimento, a pergunta que sempre precisamos nos fazer é: ‘Se isso está acontecendo, para que serve? O que temos de aprender com isso?’, a fim de tomarmos consciência das coisas que acontecem para que percebamos o seu propósito, o porquê de estarmos aqui; e é nisso e na compreensão de tudo isso que consiste o processo de mudança” (pg. 28, É tempo de mudança.)

Um tema recorrente é a relação entre pensamento e sentimento, e como as conclusões geram stress.
Explico.
Um paciente dela estava passando por um momento difícil de vida, trabalhando muito, e acabou tirando nota baixa numa prova. Mas o rapaz tinha uma autocobrança feroz e passou a se sentir fracassado, a sofrer com isso e dizia a si mesmo que aquilo era a prova de que ele nunca ia se dar bem na vida. Ou seja, um fato (a nota baixa) justificado (não teve tempo para estudar) levou a uma conclusão negativa e generalista (não ia se dar bem na vida).
Ouvi outro dia uma frase interessante: não tenha medo do diabo e nem fuja dele, porque ele já está dentro de você.
Ou seja, autorresponsabilidade, até com nossos pensamentos, é a chave para menos sofrimento. Não é menos problema, ok. Ao menos uma vida mais leve podemos ter.
Ela também fala uma coisa super bacana sobre o desânimo. Ânimo vem de anima, alma, então seria a “falta de alma”. Nos sentimos desanimados quando estamos fazendo algo em desacordo com a nossa alma, e deveríamos mudar aquela situação, ir fazer o que nos dá ânimo, ou enxergar melhor aquela atividade e transformar o sentimento sobre ela.
Mas no geral, nos culpamos muito pelo sentimento de desânimo, junto com isso, vem o tédio e a preguiça:

“A sensação de tédio, além das cobranças, pode significar o quanto não está sendo prazeroso, compensador ou válido o que você está fazendo. Questione e sinta, abra espaço para se perguntar sobre a validade de continuar a fazer algo tão tedioso; para que serve; quais as vantagens; a quem você está querendo agradar; quais os medos em parar com isso? Esses questionamentos podem ser altamente benéficos para que você entre em contato com o seu sentir e com vontades verdadeiras, e comece a perceber suas necessidades emocionais a fim de se auto-suprir e parar de esperar que esse suprimento venha de fora.” (pg. 110, É tempo de mudança)

Os dois livros da Lourdes foram meus conselheiros em muitos momentos. Sempre que eu me sentia mal com alguma coisa, vítima de alguma situação, culpando pessoas pelo que me acontecia, buscava suas palavras. E a mensagem era sempre a mesma: autonomia. Perceber que sentimento eu precisava curar e que eu era a única responsável pela minha felicidade.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

#livroselições - A ALMA IMORAL



Não tenho a menor ideia de onde vi a citação sobre este livro, mas lembro que fiquei curiosa com o título e fui pesquisar sobre ele quase imediatamente.
A alma IMORAL, de Nilton Bonder, um rabino brasileiro e autor de diversos títulos.
Citando trechos da Bíblia, do Talmud, os livros sagrados dos judeus, e diversos rabinos e teólogos da religião judaica, Nilton nos apresenta a “imoralidade” da alma.
Você vai encontrá-lo na sessão Religião da livraria, mas a mensagem vai muito além.

“Este livro busca refletir sobre a imprescindível imoralidade da alma - sobre seu constante questionamento e crítica à moral do corpo.”

O autor começa fazendo uma longa reflexão sobre a natureza do homem do ponto de vista da psicologia evolucionista, do darwinismo e da religião. Tudo isso para explicar os dois conceitos principais do livro: o que seria o corpo moral e a alma imoral.

A moral seriam as regras impostas, seja pela família, sociedade, cultura, religião ou qualquer outra instituição, ou seja, o que está posto e nos indica o melhor a ser feito, o correto, o coerente, o ponderado.
A alma, por outro lado, é questionadora, transgressora, não observa as regras. E a função dela é essa mesma, quebrar as regras e nos colocar em movimento, nos levar para fora do lugar estreito e abrir caminho no nada, no desconhecido.

Sobre isso, o autor faz uma analogia com a saída do povo hebreu do Egito.
Vamos puxar da memória as lições do catecismo. Ou vamos dar uma olhadinha no Netflix. Têm alguns filmes sobre esse episódio lá…

Não é difícil imaginar o desespero dos hebreus quando se viram encurralados entre um mar revolto e um exército inclemente. Certamente passou pela cabeça de muitos que a ideia de sair do Egito era idiota, no mínimo. Melhor manter-se seguro num ambiente conhecido, mesmo que hostil e degradante. Um sentimento muito familiar a todos os seres humanos. Quantas pessoas se mantém assim, sofrendo no conhecido, e evitam ao máximo arriscar algo melhor simplesmente por terem que encarar o desconhecido?
O trecho traz uma reflexão sobre isso:

“Quando resolvemos sair do lugar estreito, ocorre um processo semelhante com o corpo. O corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que o convencem de que não existe outra saída. Mas para onde ir se o corpo não conhece nada diferente de si mesmo? A alma, imora em sua proposta de desalojamento do corpo, impõe uma caminhada que para o corpo acaba por ser um enfrentamento com uma barreira aparentemente intransponível. Como seguir rumo à “terra prometida”, ao futuro, se entre o presente e ela existe um fosso, um mar, absoluto. O corpo então questiona a sensatez da alma. Os portões do passado se fecham, os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações - o pânico de se extinguir.” (pg. 47)

Nossa alma está sempre afrontando o nosso corpo, ou seja, o status quo. Porque queremos a segurança do conhecido, do que é aceito. A moral não aceita questionamentos. Mas é preciso que alguém rompa com o estabelecido, mesmo que num ato de autossacrifício. Dessa forma o homem evolui, progride e transforma não só a sua vida, como a de todos.

“A alma imoral está em constante processo de sabotagem à ordem estabelecida.”

Nosso papel neste mundo é alargar todas as fronteiras, todos os padrões. E esse desafio não é pequeno. A quantas regras estamos confortavelmente submetidos, mesmo discordando redondamente delas? O corpo perfeito, o trabalho perfeito, a vida perfeita, o casamento perfeito. Pautamos nossas vidas a regras opressoras mesmo sabendo que são questionáveis, por comodismo e medo.

A alma reconhece a estreiteza da moral e nos empurra a romper com isso. Tentamos nos ajustar ao que nos dizem ser o certo enquanto não temos a coragem de ouvir os gritos por liberdade da nossa alma. E ficamos ali, parados, estáticos, enquanto crescemos sem perceber. Apertamos os cintos, e nos encolhemos ao máximo. Mas a alma não permite que fiquemos parados e, num determinado momento, ela se faz ouvir.

Porém, isso não é um processo harmonioso do “lado de fora”. É violento. Choca. Dá medo. Porque sabemos o que vai acontecer. Rejeição. Solidão. Seria mais fácil, aparentemente, nos mantermos lá no mesmo lugar, fazendo sempre o mesmo. Mas a alma imoral e transgressora não nos dá essa opção. Ela exige que a gente cumpra nossa missão, que é crescer ao máximo, ir além, mesmo que pagando algum preço por isso.

“O ato de retirar a máscara - e que arranca junto o rosto antes percebido - permite que surja uma nova cara. Não há manual de obediência que nos complete a identidade. Nossa identidade se dá também pela desobediência ou pelo vazio que é a experiência ainda não experimentada, o futuro que ninguém ainda viveu.”

Os hebreus ficaram um tempo acampados na beira do Mar Vermelho antes dos egípcios virem tentar capturá-los. A ordem divina era que marchassem em direção ao mar, mas eles não o fizeram por medo. Compreensível, sejamos sinceros. Diz a tradição judaica que um homem chamado Nachson teve a coragem de marchar em direção ao mar e, quando a água estava na altura do seu nariz, o mar se abriu. Ele compreendeu a orientação de “D’us”!
Quero encerrar por aqui com um trecho que reflete sobre esse fato.

“O futuro existe se vocês marcharem. O futuro, porém, não está ligado ao presente pelo corpo. A alma é que guiará o caminho seco por meio do molhado, de um corpo a outro ou de uma margem a outra. Saber abrir mão desse corpo na fé de que outro se constituirá é saber dar o passo que leva até onde ‘não dá mais pé’. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos. Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio que magicamente se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível” (pg. 50)

terça-feira, 3 de maio de 2016

#livroselições - MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS



Amo livros.
É uma paixão desde a mais tenra idade, como diriam meus ídolos de escrita mais formal.
Não saberia dizer quais mais amei. Mas há alguns que certamente impactaram na minha visão de mundo.
Tem um, em especial, que mexeu com minhas convicções e veio num momento muito importante, de redescoberta.
Mulheres que correm com os lobos.
Esse título tem um sentido interessante, mas realmente não diz tudo... E eu também não saberia dizer qual título transmitiria todo o sentido que esse livro desperta em SUAS LEITORAS. Porque ele é um livro para mulheres, mas é nada mulherzinha, ok? Impressionante também a conexão que ele desperta entre elas, mas vou falar sobre isso um pouco na frente...
A autora, Clarissa Pinkola Estés, é uma psicanalista junguiana. Americana, mas de ascendência mexicana.
Descobri que ela também é poetisa e não me surpreendi, pois sua escrita tem um lirismo muito legal...
No livro, ela apresenta mitos e fábulas, passadas de geração em geração em forma de cantorias e histórias orais, sobre personagens surpreendidos pelas armadilhas do destino, que enfrentaram suas agruras e nos deixaram grandes lições, vencendo os desafios ou mesmo sucumbindo a eles.
São narrativas sobre a mulher selvagem, a essência feminina que habita todas nós e, como sábias mães, vai nos mostrando o nosso caminho ao longo da vida, e nos chamando de volta quando nos distanciamos.
É sobre isso, o resgate da nossa essência, a capacidade de ouvir o chamado da mulher selvagem e a coragem para caminhar de volta a ela, que trata o livro...
Algumas protagonistas dessas histórias conseguiram superar seus medos e renasceram com eles. Outras entraram em caminhos sem volta, motivadas por um amor falso, ou por uma imagem ingênua do mundo.
Depois de apresentar as histórias, Clarissa explora as mensagens implícitas nessas fábulas. Assim, olhando detalhe a detalhe, a autora nos apresenta o caminho que nós mesmas percorremos para permitir aflorar a nossa essência “selvagem”. Afinal, todo esse desencontro é um processo interno a cada mulher. Um morrer renascer constante que, se nos distancia em algum momento da nossa mulher selvagem, também nos traz de volta renovadas, fortalecidas.
Comecei a ler o livro num momento em que percebi ter feito algumas escolhas importantes, profissionais na maioria, baseadas só em questões racionais e me vi “pagando por isso”. Ou seja, estava meio frustrada...
Durante a leitura fui me encontrando em cada relato de abandono da esperança, castração da vontade para seguir padrões e expectativas alheios, decepção com aqueles em quem se confiava. Ora a moça ingênua que é levada ao encontro do perigo por um amor mentiroso ou por familiares que deveriam protegê-la. Ora um ser livre que é capturado por pessoas que admiram sua essência e, movidos por um amor egoísta (se é que podemos chamar de amor), encarceram-na. Ora sofrendo por sentir-se sozinha no mundo quando já havia encontrado a sua turma: o grupo que ela mais admirava e jamais pensou que poderia pertencer a ele
Ao mesmo tempo, sentia aquecer o coração com as análises da autora, pois conseguia enxergar um caminho de volta, uma forma de reencontrar essa essência “selvagem”. Sentia como se cada texto falasse ao meu coração, ou melhor, à minha essência. E, assim, pude ouvir a mulher selvagem em mim...
Interessante é que durante a leitura do livro, me deparei diversas vezes com... o livro! Pessoas vinham falar dele, lia algum comentário de alguém no Facebook, e se comentava sobre ele com alguma amiga, ela já tinha ouvido falar e desejava ler, ou estava lendo! Parecia um magnetismo, uma reunião de mulheres na mesma busca. Bem esotérico esse comentário, mas é verdade...
Os capítulos são independentes, não precisa seguir a sequência. Então, vira e mexe, eu busco novamente os relatos pra me entender, me resgatar. Pois a Clarissa sempre diz, a mulher selvagem enfrenta uma constante vida-morte-vida, para renascer mais forte...