segunda-feira, 24 de abril de 2017

#livroselições - A ALMA IMORAL



Não tenho a menor ideia de onde vi a citação sobre este livro, mas lembro que fiquei curiosa com o título e fui pesquisar sobre ele quase imediatamente.
A alma IMORAL, de Nilton Bonder, um rabino brasileiro e autor de diversos títulos.
Citando trechos da Bíblia, do Talmud, os livros sagrados dos judeus, e diversos rabinos e teólogos da religião judaica, Nilton nos apresenta a “imoralidade” da alma.
Você vai encontrá-lo na sessão Religião da livraria, mas a mensagem vai muito além.

“Este livro busca refletir sobre a imprescindível imoralidade da alma - sobre seu constante questionamento e crítica à moral do corpo.”

O autor começa fazendo uma longa reflexão sobre a natureza do homem do ponto de vista da psicologia evolucionista, do darwinismo e da religião. Tudo isso para explicar os dois conceitos principais do livro: o que seria o corpo moral e a alma imoral.

A moral seriam as regras impostas, seja pela família, sociedade, cultura, religião ou qualquer outra instituição, ou seja, o que está posto e nos indica o melhor a ser feito, o correto, o coerente, o ponderado.
A alma, por outro lado, é questionadora, transgressora, não observa as regras. E a função dela é essa mesma, quebrar as regras e nos colocar em movimento, nos levar para fora do lugar estreito e abrir caminho no nada, no desconhecido.

Sobre isso, o autor faz uma analogia com a saída do povo hebreu do Egito.
Vamos puxar da memória as lições do catecismo. Ou vamos dar uma olhadinha no Netflix. Têm alguns filmes sobre esse episódio lá…

Não é difícil imaginar o desespero dos hebreus quando se viram encurralados entre um mar revolto e um exército inclemente. Certamente passou pela cabeça de muitos que a ideia de sair do Egito era idiota, no mínimo. Melhor manter-se seguro num ambiente conhecido, mesmo que hostil e degradante. Um sentimento muito familiar a todos os seres humanos. Quantas pessoas se mantém assim, sofrendo no conhecido, e evitam ao máximo arriscar algo melhor simplesmente por terem que encarar o desconhecido?
O trecho traz uma reflexão sobre isso:

“Quando resolvemos sair do lugar estreito, ocorre um processo semelhante com o corpo. O corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que o convencem de que não existe outra saída. Mas para onde ir se o corpo não conhece nada diferente de si mesmo? A alma, imora em sua proposta de desalojamento do corpo, impõe uma caminhada que para o corpo acaba por ser um enfrentamento com uma barreira aparentemente intransponível. Como seguir rumo à “terra prometida”, ao futuro, se entre o presente e ela existe um fosso, um mar, absoluto. O corpo então questiona a sensatez da alma. Os portões do passado se fecham, os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações - o pânico de se extinguir.” (pg. 47)

Nossa alma está sempre afrontando o nosso corpo, ou seja, o status quo. Porque queremos a segurança do conhecido, do que é aceito. A moral não aceita questionamentos. Mas é preciso que alguém rompa com o estabelecido, mesmo que num ato de autossacrifício. Dessa forma o homem evolui, progride e transforma não só a sua vida, como a de todos.

“A alma imoral está em constante processo de sabotagem à ordem estabelecida.”

Nosso papel neste mundo é alargar todas as fronteiras, todos os padrões. E esse desafio não é pequeno. A quantas regras estamos confortavelmente submetidos, mesmo discordando redondamente delas? O corpo perfeito, o trabalho perfeito, a vida perfeita, o casamento perfeito. Pautamos nossas vidas a regras opressoras mesmo sabendo que são questionáveis, por comodismo e medo.

A alma reconhece a estreiteza da moral e nos empurra a romper com isso. Tentamos nos ajustar ao que nos dizem ser o certo enquanto não temos a coragem de ouvir os gritos por liberdade da nossa alma. E ficamos ali, parados, estáticos, enquanto crescemos sem perceber. Apertamos os cintos, e nos encolhemos ao máximo. Mas a alma não permite que fiquemos parados e, num determinado momento, ela se faz ouvir.

Porém, isso não é um processo harmonioso do “lado de fora”. É violento. Choca. Dá medo. Porque sabemos o que vai acontecer. Rejeição. Solidão. Seria mais fácil, aparentemente, nos mantermos lá no mesmo lugar, fazendo sempre o mesmo. Mas a alma imoral e transgressora não nos dá essa opção. Ela exige que a gente cumpra nossa missão, que é crescer ao máximo, ir além, mesmo que pagando algum preço por isso.

“O ato de retirar a máscara - e que arranca junto o rosto antes percebido - permite que surja uma nova cara. Não há manual de obediência que nos complete a identidade. Nossa identidade se dá também pela desobediência ou pelo vazio que é a experiência ainda não experimentada, o futuro que ninguém ainda viveu.”

Os hebreus ficaram um tempo acampados na beira do Mar Vermelho antes dos egípcios virem tentar capturá-los. A ordem divina era que marchassem em direção ao mar, mas eles não o fizeram por medo. Compreensível, sejamos sinceros. Diz a tradição judaica que um homem chamado Nachson teve a coragem de marchar em direção ao mar e, quando a água estava na altura do seu nariz, o mar se abriu. Ele compreendeu a orientação de “D’us”!
Quero encerrar por aqui com um trecho que reflete sobre esse fato.

“O futuro existe se vocês marcharem. O futuro, porém, não está ligado ao presente pelo corpo. A alma é que guiará o caminho seco por meio do molhado, de um corpo a outro ou de uma margem a outra. Saber abrir mão desse corpo na fé de que outro se constituirá é saber dar o passo que leva até onde ‘não dá mais pé’. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos. Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio que magicamente se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível” (pg. 50)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Mantenha-se em movimento.

Sou uma geminiana típica. Tenho sempre umas mil ideias geniais todos os dias, mas vou em frente com metade disso. Até começo a realizá-las, mas é provável que largue “de mão” boa parte logo no começo por elas não serem tão interessantes quanto eram quando ainda estavam no papel. Daquelas que me despertarem a vontade de perseverar, é ainda provável que eu abandone uma parte perto do final porque, possivelmente, outras tantas ideias surgirão e despertarão minha curiosidade, e eu estarei enlouquecida querendo saber mais sobre esses novos assuntos. E o ciclo inicia.
Cursos, viagens, receitas, jardins, textos. A lista de projetos abandonados é bem longa e a angústia sempre passa um bom tempo corroendo meus pensamentos. “Irresponsável”, “não termino nada”, “jogo dinheiro fora” e mais um monte de frases e adjetivos pouco positivos ao meu respeito inundam a minha mente toda vez que eu decido abandonar algum projeto. Já me culpei muito por essa minha tendência a começar muita coisa e terminar umas poucas.
Um belo dia li algo sobre pessoas multipotenciais e me redimi comigo mesma. O texto dizia que algumas pessoas possuem interesses os mais variados possíveis, muitas vezes divergentes. Elas seriam movidas pela pura curiosidade e vontade de aprender. E pronto! Podemos todos seguir em paz!
Ao ler sobre esse sujeito, com o qual me identifico muito, percebi que acima de qualquer coisa está a vontade de aprender. É isso o que o multipotencial, eu, e mais um galera, sentem: desejo por ampliar o próprio mundo através de novos e instigantes conhecimentos. Do tricô ao tarô, das novas técnicas de maquiagem às descobertas sobre novos planetas. Porque é isso mesmo, a gente gosta é de aprender!
Sim, eu poderia falar alemão fluentemente. Ou poderia estar num nível avançado em um curso qualquer que comecei e depois acabei largando. Mas, não larguei esses projetos para ficar fuçando a vida do povo no Facebook. Fiquei o tempo que achei necessário, e depois parti para experiências que estavam mais alinhadas ao meu momento e despertavam meu interesse.
Percebo que o mais importante é manter-se em movimento. O bom e velho hábito de ocupar a mente é o melhor que podemos fazer por nós mesmos. Quanto mais ocupados, quanto mais buscarmos conhecimento, melhor pra nós. Mais próspera e interessante será a nossa vida. O interesse por um determinado assunto pode morrer depois de poucas aulas, mas o conhecimento que acumulamos nunca se perde. E o desejo por aprender está lá, no DNA!
Não estou pregando a falta de foco. Pelo contrário. Só acho que a vida é ampla demais pra nos prendermos a metas e promessas.
Quero dizer àquelas pessoas que largam o que não lhes interessa mais e partem para novos desafios isso: “Tamu junto!”. Pra que perder tempo quando sabemos que outros coelhos mais legais, curiosos e desconhecidos sairão de outros matos mais legais, curiosos e desconhecidos?

sábado, 18 de março de 2017

A arte (necessária) de largar o que quiser.

Já comecei e larguei um monte de coisas que, num certo momento, eram TUDO o que eu queria fazer da minha vida!
Seja um curso, seja ler um livro, seja uma mobília, um amor, um amigo, uma viagem, um sonho!
Sou a rainha da aula experimental, a propósito.
Sempre cadastro meu email nessas landing pages e baixo qualquer ebook que oferecem.
E tenho um quartinho dos sonhos abandonados, onde eu botei meus óculos de natação e minha bicicleta para o triathlon que não realizei, meus livros de estudos pro concurso do Itamaraty, minha esteirinha da yoga que larguei há tempos, meus CDs da aula de canto. A calça do Krav Magá tá na porta...
Gosto mesmo de experimentar. De aulas a relacionamentos.
Faz parte da minha medida de realização pessoal a quantidade de experiências que vivi e conhecimentos que acumulei.
Algumas experiências eu repetiria muitas vezes, de outras até me arrependo. Mas algo em mim, graças a Deus/ ao Universo/ à Força Superior, percebe essas piores experiências como capítulos do livro da vida devidamente estudados. Claramente, isso é uma metáfora que eu criei pra proteger meu ego frágil. Porque sempre dá uma sensação de derrota começar algo e desistir depois. Principalmente quando você falou empolgado sobre aquilo pra todo mundo. Até postou fotinhas no Insta/Face/Snap/tudo-de-rede-social-que-existe!
O blog existe por e graças a isso: as coisas que eu percebo nessas experiências se transformam em inspiração pra escrever.
E devo confessar: as piores cagadas se transformam nos melhores textos.
Acho que a experiência de viver é isso mesmo, dar vazão às várias influências que recebemos. Serve pra mim por um tempo, e depois eu largo. Mas alguém vê aquilo em mim e adota, porque se encaixa no momento que está vivendo. Enfim! Às vezes, as coisas não vêm só pra nós, mas pra alguém que será inspirado por nós. E nos transformamos nessa ponte maravilhosa da inspiração pra quem precisa recebê-la. De roupa a atitudes!
Acho super importante saber descartar sonhos e projetos.
Assim como retardamos demais pra começar alguns, podemos não soltar outros com a brevidade necessária para estarmos livres pros próximos mais coerentes com nosso momento. E por puro medo, apenas. Medo de ser julgado, de jogar fora “tanta coisa” que construímos. Pobres humanos de visão limitada!
Porque não estou aqui nesse mundo pra falar inglês fluente, ou pra ser um químico, mas pra ser o máximo que posso ser. Talvez esteja incluído nesse projeto falar fluente um idioma e ter uma graduação. Talvez não. É aquela velha história, cada um tem a sua caminhada.Só eu posso saber o momento de começar, de parar, de partir. Porque a história é minha...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Bem-vindo ao amor real.

Como dá medo amar o falho, o imperfeito, o que não é 100% garantido. A gente sempre espera muito daquilo que ama, porque não existe amor sem investimento de energia e tempo e vamos certamente querer o mesmo de volta, do mesmo jeito, da mesma forma, na mesma intensidade. Insuportável não receber isso.


Fazer, buscar, viver, ser o que se quer de verdade. Tudo isso é arriscado demais.
Se não vingar, perde-se tudo. Porque muitas vezes a gente tem que agir diferente do que dizem ser certo, então não se trata de mais uma ou outra frustração nas curvas da vida, mas uma derrota, a prova de que não sabemos de nada e é melhor ficar quietos no cantinho e parar de inventar moda…


Portanto, só suportamos um amor com garantias. Só que isso não existe...


Eu acho que a gente sempre sabe o que quer de verdade. Mas isso exige de nós a capacidade de perceber a felicidade no simples fato de estar vivendo aquilo que o coração tanto deseja. Isso dá uma paz pra alma! Não vai ser como pensamos, provavelmente menos festivo, menos confortável. Mas vai trazer uma vitalidade incrível, e alegria espontânea. É isso o acontece quando vivemos o que queremos, verdadeiramente.


Pra mim, o amor até começa com um sentimento, um aquecer na alma, mas pra ser de verdade, tem que ter aposta. Acho isso, quem ama investe, acredita e vai, ou fica e espera um pouco. Mas compreende que não é confortável e nem por isso se melindra e desiste. Porque vale a pena, dizem. Sentem!

Comentei sobre isso com uma pessoa iluminada que Deus/o Universo/a Força Superior botou na minha vida. Conversamos bastante sobre como o amor exige aposta e ser capaz de percebê-lo quando tem formas diferentes das nossas, e que assim mesmo é tudo amor. Aí ela me disse “bem vinda ao amor real”. Eu gostei disso.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Pra onde você TEM que ir.

Perceber a si mesmo, o que é bom e o que é ruim em nós, não é fácil. Mas é essencial. Me refiro a essa coisa toda de auto conhecimento blá blá blá. De verdade, não saber quem se é, o que é seu e o que é do mundo, pode ser massante, angustiante e até caro.
Pelo menos à primeira vista, as máscaras que usamos para habitar esse mundo e se relacionar com as pessoas são mais confortáveis. Poderíamos viver eternamente com elas na cara e no coração. Mas não dá.
De repente vem uma inquietação, uma angústia, um vazio e um turbilhão de pensamentos. E aquilo tudo que te fez ser o fulano, a sicrana, e se sentir à vontade com isso, já não faz mais sentido. Medo. É tudo o que se sente.
A vida nos obriga a mudar.
E sentimos que devemos “partir em busca” de uma solução praquele incômodo, com a certeza de que nada será como antes.
Pra onde temos que ir?
Durante um tempo, o melhor lugar para se explorar é um tanto estranho, às vezes escuro, solitário. Nosso interior, nossa essência. O lugar mais misterioso que existe. Lá, nos perderemos mais ainda. Tropeçaremos em quinquilharias e escombros acumulados e esquecidos por lá há tempos! Quase soterrados por tudo aquilo, ficaremos assustados. Como ficou tudo daquele jeito?
Mas temos que ir lá. Temos que enfrentar essas cavernas e passar fome e frio e sede e medo. E sozinhos. Porque a vida, é uma aventura individual com companhias temporárias.
De lá, não sairemos os mesmos. Levará um tempo para encontrarmos algum lugar confortável. Na verdade, precisaremos criar esse novo lar, esse canto que habitaremos até sentir novamente o impulso de rever a si mesmo e se transformar... Porque sairemos de lá, do nosso misterioso interior, transformados. E perceberemos então que somos mais do que jamais imaginamos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Tudo acontece PRA você.

Eu, como qualquer ser vivo deste planeta, enfrento meus perrengues. Às vezes, vou "na classe" e ainda consigo encontrar um sentido naquilo tudo. Outras vezes, olho pro céu e pergunto POR QUE EU? POR QUE COMIGO? Fico sinceramente intrigada sobre como as coisas dão errado e com a minha capacidade de "levar porrada". POR QUÊ?

Um sentimento de fragilidade sempre toma conta e a única vontade que tenho é de voltar pro útero da minha mãe, porque lá era quentinho (eu acho) e ela sabe resolver problemas muito melhor que eu.
Mas como isso não é possível, passo tempos e tempos ruminando aquela situação toda, como aconteceu, como fulano/sicrana pôde fazer isso comigo, como foi acontecer aquilo, como agi assim ou assado, como Deus permiti. Logo eu! Por quê?

Posso consumir muito tempo nesse processo, mas sempre tem um momento em que tudo isso cansa.
Nesse momento, as coisas se encaixam, os fatos se encaixam. E, de forma involuntária, acabo sendo obrigada a perceber minha responsabilidade naquilo tudo. Minha cabeça e meu coração não me deixam em paz até que eu reconheça tudo aquilo. E finalmente deixo "pra lá".

Se conseguíssemos enxergar a vida como uma grande escola, entenderíamos que tudo acontece PARA nosso aprimoramento. Ali, naquela experiência, muitas vezes terrível, é possível encontrar lições valiosas, que se tornam curas milagrosas para feridas profundas abertas em nós há tempos e tempos.

Muitos dizem que a dor é melhor professora que o amor. Não acredito nisso e nem desejo essa pedagogia. MAS, tenho que admitir que ficamos muito mais abertos a aprender quando nos vemos encurralados em situações angustiantes. É como se a alegria fosse, em alguns momentos, uma cortina de fumaça que pode esconder toda a profundidade de uma experiência. Eufóricos, queremos mesmo é extravasar e comemorar, e gritar e dançar. Tudo deve ser sentido ali. Tristes, nos recolhemos e nos colocamos a ouvir cada suspiro de nossa mente e coração, em busca de uma resposta, do caminho, da luz no fim do túnel. Não restam muitas opções: ou absorvemos as lições ou continuamos a ruminar e ruminar aquela situação toda…

Já li muito sobre isso, que as experiências de nossa vida são como grandes lições. Agora, como conseguir enxergar isso quando estamos feridos, magoados? Aliás, vitimizar-se é uma forma de defesa quando uma situação é dura demais para encararmos de outra forma. Chamamos atenção para nossa dor, choramos, esperneamos, queremos ser vistos… Isso é instintivo. Graças a Deus… Senão, ficaríamos definhando calados porque não conseguimos lidar. Então vitimismo, eu te absolvo e te agradeço!

Porém, o objetivo é sempre a nossa evolução, então precisaremos em algum momento lidar melhor com as situações que nos ferem e tentar absorver dali o que precisamos aprender…
Se conseguíssemos olhar um pouco além da experiência dolorosa, veríamos a nós mesmos fazendo escolhas que não condizem com nossos valores, julgando, procrastinando… Enxergaríamos nossas crenças castradoras e enganosas influenciando nossas escolhas, nossos pensamentos.

Não é fácil olhar com lupa para nosso comportamento. Quando estamos feridos, só conseguimos enxergar culpados. Como se responsabilizar por algo que nos feriu se estamos em frangalhos? Mas ali, meus amigos, naquela dor, naquela raiva, naquela angústia, naquela cobrança, há um verdadeiro tesouro. Há nós mesmos, nus em pêlo, só crença e sentimento. Melhor hora não existe para capturarmos aspectos nossos que ficam escondidos, geralmente, sob as máscaras sociais que construímos. Num veneninho destilado, numa cobrança exacerbada ou manhosa, no ciúme, podemos enxergar a nós mesmos.

Não quer dizer que o outro é inocente. Ele terá a sua paga, se for capaz e estiver disposto a olhar além. Mas como nossa responsabilidade é com a gente mesmo, então cabe a nós tentar perceber as lições que aquela experiência tem a nos ensinar. Cada um sabe de si. E ninguém falou em culpa aqui, que fique bem claro. Falou-se em responsabilidades. Auto responsabilidade. Tornar-se adulto e autônomo, e responsável pelo próprio desenvolvimento, pela própria vida. O poder de escolha é nosso, então a responsabilidade também é.

Dizem os gurus e toda essa galera que vive de ajudar os outros a se desenvolver que as respostas vêm. O próprio universo se encarrega de mandar, na forma de uma frase, uma palavra, um blog… Ufa! Menos trabalho. Afinal, já é um grande sacrifício dispor-se a olhar além de todo o sangue escorrendo na nossa cara quando estamos feridos. Mas a vida é isso, é maravilhosa e generosa… Basta coragem. Pq ela não é para covardes. Ela é pra quem vai do peito aberto...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cuidemos de nós...

O trecho de uma matéria sobre “detox emocional” que li outro dia ainda reverbera na minha cabeça. O autor contava que havia sido enganado pelo seu contador e que isso o deixou muito abalado. Superado o choque inicial, ele passou a analisar o próprio comportamento e conseguiu enxergar a sua contribuição para o fato. E é neste momento que ele compartilha seu insight, o tal trecho que me fez refletir. Dizia assim:
“... meu descaso com certos aspectos materiais da vida, minha ingenuidade infantil (que é bem diferente de inocência, porque revela apenas imaturidade), meu desejo eterno que alguém cuide de mim sem que eu precise estar atenta e alerta.”
O grifo é meu. Quero destacar a parte que mais me chamou atenção.

Todos queremos o melhor da vida. Se possível, apenas as alegrias. Mas sabemos que é impossível, inviável eu diria. A vida é isso mesmo, esse monte de sobe e desce que acontece por motivos diversos, mas tem a duração ou a intensidade que nós permitimos. Isso, pra mim, é autorresponsabilidade, essa sabedoria de encarar as durezas, ser grato e aproveitar as alegrias, mas sempre à frente, respondendo por tudo.

E acredito que é este o caminho para nos tornamos realmente adultos. Não se trata apenas de ter o próprio dinheiro, ou tomar as próprias decisões. Isso pode ser vivido por pessoas tão dependentes quanto uma criança. A grande questão é como isso tudo se desenrola, ou seja, como arcamos com as consequências. Implica em ser o único responsável por tornar a própria vida boa, interessante. E estar disposto a pagar esse preço, porque a própria felicidade é como o querido Mastercard…

Muitas vezes buscamos nas relações a solução para nossas questões emocionais. O parceiro fica incumbido de nos fazer sentir desejados e nos alçar à posição de indivíduo mais importante da vida. Preenchemos nosso tempo com a vida do outro, vivendo para o outro, mas não conseguimos compreender que aquela relação é apenas um aspecto da nossa vida.

Um fato bastante irônico me ocorreu outro dia. O Facebook trouxe a lembrança de fotos de ex namorados meus, todas postadas no mesmo dia, mas em anos diferentes. Que data poderosa, podemos pensar! Mas a questão principal ali, o que me fez refletir, não foi a lembrança dos que foram, mas de quem continua lá: eu.

Sobre vários aspectos da minha vida, eu tenho essa crença de que o outro precisa ou me suprir ou se responsabilizar e pronto, só me resta sentar em berço esplêndido e esperar ser nutrida. Não por acaso esse trecho  da matéria piscou na minha frente em luz neon. A carapuça serviu, sim. Eu vivo isso em muitas áreas.No amor, quero ser ratificada e posta no pedestal. Muitas vezes não percebo, convenientemente, diga-se de passagem, que eu sou a única responsável por mim e por tornar a minha vida mais interessante.

Eu sempre almejei um conforto: ter alguém que cuidasse da minha casa. Imaginava uma conta corrente com uma idealizada secretária que resolveria não apenas o cardápio do dia, mas a manutenção dos móveis da casa e se preocuparia em manter todas as contas em dia. Sim, queria alguém cuidando da minha vida. E meu dinheiro seria o dinheiro dela. Nada mal. Muito justo.

Cuidar da própria casa e responsabilizar-se por ela em seus detalhes ultrapassa em muito a decoração de um ambiente. Isso inclui um trabalho pesado que vai tomar a maior parte do tempo: cozinhar a batata doce, lavar a louça diariamente, esperar o encanador ou o técnico da TV um dia inteiro, consertar oq quebrar rapidamente. Não tem festa neste momento, e no geral é tudo muito solitário. Mas é a nossa casa, a nossa vida, nos diz respeito. Apenas a nós mesmos.